A Intervenção Territorial Integrada Douro Vinhateiro tem como principal objectivo a promoção de uma gestão dos sistemas agrícolas e florestais adequada à conservação de valores de biodiversidade e de manutenção da paisagem na Região Demarcada do Douro.
Assim, contribuir para manutenção e recuperação do património paisagístico e vernacular da Região Demarcada do Douro, incentivando os agricultores à conservação e recuperação de socalcos, bem como à reabilitação de muros, pombais, casebres e outros elementos notáveis de arquitectura vernacular, como contributo para a conservação de biodiversidade e manutenção das características da paisagem duriense.

A Região Demarcada do Douro possui uma área total de 250 000 ha, dos quais 45 000 ha com vinha distribuídos por 39 506 viticultores, sendo a restante área ocupada por olival, amendoal e matos mediterrânicos, alguns dos quais em mortórios e incultos.. Trata-se de um território impar, dotado de uma forte identidade paisagística, cultural, social e económica .

A longa tradição de viticultura no Douro produziu uma paisagem cultural de beleza excepcional, que reflecte a sua evolução tecnológica, social e económica. A área classificada, na categoria de paisagem cultural, evolutiva e viva, engloba 13 concelhos: Mesão Frio, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Alijó, Sabrosa, Carrazeda de Ansiães, Torre de Moncorvo, Lamego, Armamar, Tabuaço, S. João da Pesqueira e Vila Nova de Foz Côa, e representa dez por cento da Região Demarcada do Douro.
No entanto, vale a pena referir, que além da mancha que tem uma área de aproximadamente 25 000 ha que foi considerada representativa dos valores em presença na Região do Douro, a UNESCO considerou a restante área da Região Demarcada como "zona tampão" e deu indicações no sentido de nela ser aplicado o mesmo tipo de medidas conducentes à gestão e salvaguarda da paisagem classificada.

A paisagem cultural do Alto Douro Vinhateiro combina, de forma ímpar, a natureza monumental do vale do rio Douro, feito de encostas íngremes e solos pobres e acidentados, com a acção ancestral e contínua do Homem, adaptando o espaço às necessidades agrícolas de tipo mediterrâneo que a região suporta.
A paisagem do Alto Douro é dominada pelas culturas permanentes da vinha, olival, e amendoal, paralelas a extensas manchas de matos mediterrânicos, cuja distribuição evidencia a transição do atlântico para o mediterrânico.
A cultura da vinha concilia diferentes técnicas de armação do terreno, desenvolvidas ao longo dos tempos, em função da disponibilidade da mão-de-obra, do agravamento de custos e progressiva possibilidade de recurso às máquinas de surriba, criando uma paisagem de arquitectura complexa, de mosaicos caprichosamente dispostos e acentuado efeito cénico.

A principal mancha de vinha surge estruturada em socalcos, construídos nos declives íngremes da montanha xistosa, o que tornou necessário, para a sua plantação, fabricar solo, ou seja, partir literalmente o xisto em pedacinhos progressivamente mais pequenos (antrossolos). Os socalcos ou geios, suportados tradicionalmente por extensos muros de xisto, designados por calços, que simultaneamente evitavam a erosão, possuem geometria variável, consoante a inclinação da encosta e a técnica de terraceamento correspondente à sua época de construção.

Os mais antigos, designam-se por socalcos pré-filoxéricos, visto serem anteriores à praga que destruiu o vinhedo do Douro no último terço do séc. XIX; são geralmente horizontais, geios estreitos e irregulares, comportando uma ou duas linhas de bardos, acompanhando caprichosamente as curvas de nível e os afloramentos rochosos, em linhas sinuosas formando concavidades e convexidades harmoniosas. A altura dos calços possuía entre um e dois metros.
Associados a alguns destes socalcos, subsistem vestígios de técnicas tradicionais ainda mais antigas, como a dos pilheiros ou boeiros, em que as videiras eram plantadas em cavidades abertas na parede do calço, libertando assim os geios para outras culturas, nomeadamente arvenses ou cereais.
Os socalcos abandonados com a filoxera, designam-se por mortórios e subsistem algumas manchas significativas; conservam os muros de suporte e encontram-se ocupados por vegetação espontânea ou recolonizados por oliveiras ou, mais raramente, por vinha.
A reconversão e os novos arroteamentos construídos após a crise provocada pela filoxera traduziu-se numa paisagem de grandes extensões de socalcos contínuos, ainda segundo as curvas de nível, mas de desenho regular, em linhas quebradas, suportados por muros mais altos; os terraços são mais largos e levemente inclinados, favorecendo a exposição da vinha ao sol, que pode surgir em quatro, cinco ou mais bardos por geio e num compasso mais largo, que favorece a utilização de meios técnicos como a tracção animal. Designam-se por socalcos pós-filoxéricos.
Os muros de suporte dos socalcos são um dos elementos mais marcantes e personificadores da paisagem duriense, não só pela sua extensão, como pela mestria com que foram construídos, em pedra seca. A comunicação entre os vários socalcos faz-se por rampas, calcetadas com grandes lajes de xisto, ou escadas; estas podem ser embutidas na espessura do muro, serem salientes e maciças, ou ainda serem formadas pela colocação de lajes salientes e transversais à parede, que formam os degraus, chamando-se a este tipo mais antigo de escada em salta cão. Estas zonas de circulação entre os socalcos são muitas vezes caiadas para ajudar os vindimadores a encontrar o caminho para despejar os cestos de uvas, constituindo pontos de referência importante na paisagem.
Paralelamente aos métodos mais antigos de armação do terreno, surgem formas mais recentes que alteraram profundamente a paisagem: trata-se da vinha em patamares e a vinha ao alto. Os patamares, construídos sobre mortórios e terraços pré-filoxéricos e, por vezes, sobre terrenos onde ainda não havia vinha, constituem taludes inclinados suportando uma plataforma horizontal comportando, geralmente, dois bardos de vinha, separados entre si cerca de 2 m., permitindo a mecanização.
O sistema de vinha ao alto tem vindo a ser largamente experimentado no Douro, em alternativa ao dos patamares, embora ele não seja possível em declives de encosta superior a 40%. Segundo esta técnica, a vinha é plantada ao longo da encosta em fiadas perpendiculares às curvas de nível, separadas por estradas de trabalho, de 3 m de largura, permitindo a mecanização. Actualmente, uma terceira forma de instalação da vinha tem sido posta em prática, a dos patamares mais estreitos, procurando conciliar vantagens e inconvenientes de cada uma das anteriores, ou seja, os patamares têm a largura de 1,9 até 2,5 m., comportando uma só fila de vinha, plantada na zona do aterro, e de taludes mais baixos.
As oliveiras, as amendoeiras e outras árvores de fruto, como as cerejeiras e os pessegueiros, surgem significativamente na compartimentação da paisagem. Os olivais aparecem na bordadura das vinhas, delimitando as quintas, nos mortórios recolonizados, ou então, mais regulares e contínuos, localizados nos extremos da área da vinha. Nas cotas baixas das margens do Douro, ou junto às linhas de água de encosta existem laranjais, por vezes protegidos por muros baixos, ou totalmente murados, e hortas; os pomares são mais frequentes na margem direita do Douro, devido à exposição a Sul.
Na cota superior das montanhas e nas quebradas, onde o cultivo da vinha não é rentável, desenvolve-se o "monte baixo" e retalhos de floresta. As espécies arbustivas mais frequentes são a estepe, a urze, a giesta, o trovisco, o rosmaninho, a carqueja, o medronheiro e o zimbro; na floresta ou mata dominam as espécies mediterrânicas, típicas da região, como o pinheiro, o carvalho (o negral e o roble), a azinheira, o castanheiro e o sobreiro.
O povoamento da região do Alto Douro, tal como a paisagem, apresenta algumas diferenças, consoante as sub-regiões.
Assim no Baixo Corgo, de características geo-climáticas mais favoráveis, com terrenos a apresentarem menor declive, predomina a cultura da vinha, que aqui se cultiva intensamente, sobretudo em socalcos pós-filoxéricos, conduzindo a uma paisagem muito compartimentada, de complexo desenho, delimitado por bordaduras de oliveira, amendoeira ou outras árvores de fruta, como as cerejeiras e os pessegueiros. É também a região com menos mortórios, já que a natureza do terreno e a densidade populacional, facilitaram a sua recolonização.
Os povoados são cercados por grande número de quintas. Para lá das quintas, ficam os casais, hortas e pequenas vinhas dos proprietários do lugar, com as construções de apoio ao trabalho vitivinícola, como sejam os casebres ou cardanhos, de estrutura vernacular, paramentos em xisto miúdo, com ombreiras e padieiras dos vãos em silhares de granito, em grandes placas de xisto ou com barrotes de madeira, e cobertura de telha sobre possante estrutura de madeira. Junto às linhas de água, erguem-se os moinhos de cereal.
A unidade de paisagem do Cima Corgo caracteriza-se pelo clima mais seco e relevo mais acidentado predomina igualmente a cultura da vinha, armada sobretudo em socalcos pós-filoxéricos, mas também com grande implantação de vinha ao alto. A propriedade é contígua e de grande dimensão.
Este território é ocupado pelas quintas de produção vitivinícola, de grande área e imponentes socalcos. Com o crescimento do comércio do vinho, a construção centro de vinificação e armazenamento torna-se mais complexa. Quando as quintas produziam azeite, existe neste núcleo construído o lagar de azeite. Para além destes edifícios, existiam ainda a casa do caseiro, cardenhos, frasqueira e outros.
O Douro Superior, de Verão prolongado, seco e muito quente, só viu desenvolvida a cultura intensiva da vinha na segunda metade do séc. 19, depois da destruição do Cachão da Valeira. Isto resultou numa propriedade de dimensões ainda maiores, implantadas em cota baixa, junto ao rio e ao caminho-de-ferro, com a vinha disposta predominantemente ao alto ou sem armação do terreno, técnica esta praticamente inexistente no Baixo Corgo e constituindo o Cima Corgo uma zona de transição; cartograficamente, a sua representação é quase um negativo da distribuição da vinha plantada em terraços pós-filoxéricos. É acompanhada pela oliveira e amendoeira, na compartimentação da paisagem, e o património vernacular vitícola espelha o avanço tardio pela introdução de inovações técnicas da época..
Em todo o Alto Douro, o curso dos rios Douro e afluentes é normalmente acompanhado pelo caminho-de-ferro, o qual determinou a construção de estações nos principais povoados ou apiadeiros, por vezes integrados no perímetro das quintas, como na dos Malvedos, bem como de pontes ferroviárias, de vigas de tipo treliça, também elas cortando parcialmente as quintas.
A relação do homem com a terra e as dificuldades e tribulações da viagem no rio, deram origem a uma profunda religiosidade popular e atitudes devocionais. Dessas, destacam-se os nichos com imagens de Cristo, da Virgem ou de vários Santos patronos, pintados, esculpidos ou em pequenos retábulos, rasgados nas margens rochosas que ladeiam os pontos, ou as inúmeras ermidas, capelas e santuários, muitas vezes relacionados com os elementos naturais, como é o caso do Santuário de São Salvador do Mundo erguido na serra sobre o temido Cachão da Valeira.
De facto, de acordo com o anteriormente exposto, o Douro é dotado de uma património vastíssimo, tornando-se urgente e necessário proceder à sua conservação, recuperação e reabilitação. Neste seguimento, as medidas previstas na ITI-DV visam contribuir para a conservação, qualificação e valorização do património cultural, paisagístico e vernacular de toda a Região Demarcada do Douro, com destaque para a mancha classificada como Património Mundial da Humanidade.